7.1.07

Artistas da Fome

Comer já não é mais instinto, necessidade, virou racionalidade. Leio na última Marie Claire de 2006 que algumas meninas não mais ingerem alimentos por vontade, perderam o gosto – literalmente. Alimentação, vejam só, é inaptidão.

Mas como? Comer talvez seja a maior verdade histórica. Não comer? É antinatural, anti-humano. Encaremos: são antimeninas.


Em vez de restaurantes a R$ 1, no futuro teremos batalhões ensandecidos de meninas nas ruas exigindo estabelecimentos de estética pelo preço mínimo. Claro, o problema deixou finalmente os salões de beleza para tornar-se assunto de saúde pública - “adolescentes vítimas de anorexia mexem com o mundo”, lê-se nas retrospectivas de fim-de-ano.

Que a gordura extra na carne incomoda isso é fato. É fato que a sua ausência também incomoda, principalmente quando vira espetáculo, como no personagem de Kafka. Confinado em uma jaula, o “artista da fome”, incapaz de tragar mera migalha de pão, atraía multidões nas cidades européias. Sua única tristeza era não poder jejuar por mais tempo, uma vez que seu empresário limitava o prazo de abstinência em quarenta dias. À medida que o tempo ia, as pessoas se interessavam por outras formas de diversão, e passaram a ignorar o artista. Até que, confundido com a palha podre da jaula, o artista teve forças para uma confissão ao inspetor de circo:

-Eu queria que vocês me admirassem, mas não deveriam – disse o artista.

-E por que não? – retrucou o inspetor.

-Porque eu nunca encontrei uma comida que gostasse... se tivesse encontrado alguma, acreditem-me, não teria feito toda esta confusão. Teria me empanturrado como você ou qualquer outra pessoa – falou, antes de ser enterrado com a palha apodrecida e dar lugar a uma jovem pantera, bem alimentada, da qual os espectadores não desgrudavam os olhos.

Se fosse nosso contemporâneo, e mulher, o “artista da fome” teria status de cânone da beleza. Visitaria o Faustão aos domingos e contracenaria com a Grazi em “Páginas da Vida”. Volto ao que queria dizer: o mundo de hoje tem algo de Kafka.

Não é necessário ir muito longe. Tratarei os exemplos pelos números, dado que, no ano passado, os obituários o fizeram por pesos e medidas. Ana Carolina Reston, 40 Kg e 1,74m, 21 anos, modelo, vítima de anorexia e de infecção generalizada causada pelo estado de fragilidade extrema. Rosana de Oliveira, 23 anos, manicure, morreu após três anos convivendo com anorexia. Tinha 40Kg e 1,68m. Beatriz Cristina Ferraz, 23 anos, estudante, sofria da doença há quatro anos. Morreu no banho, parada cardíaca, na véspera de Natal. Chegou a pesar 27 kg.

Isto sem falar na uruguaia Luisel Ramos, de 22 anos, que sofreu parada cárdio-respiratória fulminante em pleno desfile. Como que num espelho da doença, depressiva, solitária, escondeu-a do público até o último momento – caiu quando ia da passarela para o camarim.

O irônico é pensar que muitas sequer passaram fome na vida. São filhas da classe média, média-alta, alta, AA, outras bem-sucedidos pilares da moda, saudáveis, cercadas de conforto por todos os lados. Algumas até polpudas em certos momentos da vida. Nunca lhes faltou um prato de filé com batata frita na mesa. Está para nascer uma miserável anoréxica.

Vaidade não escolhe classe. Sei. Se lhes resta um mísero tostão furado no bolso que pague a refeição, contudo, ouve-se logo da mãe desdentada: “As criancinhas na África dariam de tudo para ter esse pouco de comida que você tá recusando”. As mães e suas verdades... desmantelam qualquer um.

Até os 13 anos tive um vizinho chamado Ademardo – ou Adê, para os íntimos. Vejam, já não se fazem mais vizinhos chamados Ademardo, que é nome de vizinho, assim como Oliveira ou Helinho. Também não se fazem mais vizinhas gordas como as de Nelson Rodrigues. Se antes os homens eram magros, olhos esbugalhados, peito cavo, as mulheres tinham que ser gordas. Hoje uma gorda não passa sem um sinal de exclamação ao lado. “Gorda! Gorda!”, repetem em coro.

Como num lampejo de sobriedade, a Marie Claire desprendeu suas folhas da mediocridade que cerca o mercado editorial brasileiro – um abutre que repica mesma carniça, semana após semana, até que o assunto apodreça ou pinte carne fresca – para discutir a anorexia como problema fora das passarelas: o padrão de beleza é imposto a todas as mulheres, não só às modelos. Mesmo que a capa da revista trouxesse estampado o magérrimo furacão almodovariano, Penélope Cruz.


Leio ainda que tubos de alimentação, usados para injetar nutrientes à força nos corpos subnutridos, são símbolo de status entre um grupo de meninas. Fecho os olhos com vontade de dizer-lhes, "sejam gordas, meninas, sejam gordas".

1 Comments:

Anonymous Julia R. said...

14 anos. 1,70 e 38k. Mais uma morte. Mais uma manchete triste.
A ditadura da moda impõe medidas mórbidas para modelos-cabide e meninas sonhadoras que enlouquecem, adoecem em busca de um padrão de beleza inalcançável.

Tomara que as mortes por anorexia não sejam só: manchetes descartáveis, fofocas em salão de beleza, papos de bar, e comentários nos blogs. Tomara que as mães, agentes, empresários, médicos, etc, etc.. fiquem de olho nas nossas meninas. ( e que as gordinhas também subam na passarela!)

Leia: http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,AA1412424-5606,00.html

20:23  

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